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Mistério Brasil

Máquinas · Descoberta · Voo sem propulsão apurado

Um robô sem hélice se equilibra no ar mudando de forma — dentro de um túnel de vento

Floaty paira em ar que sobe a 10 m/s gastando 10 W/kg, dez vezes menos que um drone, mas nunca voou fora do túnel de vento.

Equipe Mistério Brasil Publicado em 4.103 palavras

19min de leitura
Robô achatado, de corpo central escuro e quatro abas retangulares inclinadas ao redor, suspenso no ar sobre a boca circular de um túnel de vento vertical, com câmeras de captura de movimento ao fundo Ilustração de IA — não é fotografia
Nota visual: A imagem de abertura é uma ilustração original gerada por inteligência artificial para representar o tema. Ela não é fotografia nem evidência documental.
Neste texto — 7 seções, 19 min
  1. Onde Floaty voou, exatamente2 min
  2. Arrasto, não sustentação2 min
  3. A dobra de 42,5 graus2 min
  4. O que “modelo aerodinâmico aprendido” quer dizer2 min
  5. A conta de energia2 min
  6. O que as aves fazem, e o que Floaty não faz3 min
  7. Da chaminé ao que ainda não existe3 min
  8. Fontes e leituras complementares8

Em 21 de junho de 2026, a revista npj Robotics publicou a descrição de Floaty, um robô de 340 gramas que se mantém parado no ar sem gerar empuxo: no lugar de hélices, ele tem quatro abas motorizadas que giram para redistribuir a resistência do ar sobre o próprio corpo. O consumo medido é de cerca de 10 watts por quilo, uma ordem de grandeza abaixo do de um multirrotor equivalente. O detalhe que costuma encolher quando a notícia viaja é onde isso acontece: todos os voos descritos no artigo ocorreram dentro de um túnel de vento vertical de 1,2 metro de diâmetro, construído pelo próprio grupo, com a posição do robô medida por cinco câmeras externas e parte do controle rodando em um computador fora dele. Floaty não plana, não voa para frente e não saiu do laboratório.

Onde Floaty voou, exatamente

O ponto de partida do trabalho é um compromisso conhecido da robótica aérea. Multirrotores pairam e manobram em qualquer direção, mas pagam por isso com empuxo contínuo: o levantamento reunido pelos autores situa o consumo específico dessas máquinas entre 100 e 250 watts por quilo em voo pairado. Aeronaves de asa fixa gastam bem menos, porém precisam de velocidade de avanço para gerar sustentação e não conseguem ficar paradas. Floaty é uma tentativa de terceira via, e ela só funciona onde o ar já está subindo.

Os ensaios são específicos, e vale enumerá-los, porque a distância entre o que foi medido e o que foi imaginado é o eixo desta reportagem. O robô manteve posição sobre um alvo a 115 centímetros acima do centro do túnel durante 30 segundos, permanecendo dentro de uma caixa de 20 centímetros de lado, com erro inferior a 6 centímetros em cada eixo na maior parte do tempo e desvio de atitude abaixo de 20 graus. Rastreou comandos de guinada em forma de onda até 0,15 hertz, com velocidade angular superior a 80 graus por segundo, e respondeu a degraus de até 110 graus com tempo de acomodação menor que meio segundo. Seguiu uma variação senoidal de altura de 20 centímetros de amplitude e um deslocamento lateral em onda quadrada de 10 centímetros.

A amplitude lateral de 10 centímetros não é uma escolha de projeto: é o limite do equipamento. Segundo os autores, a região do túnel com escoamento adequado ao voo é um cilindro de aproximadamente 40 centímetros de diâmetro. Fora dela, o robô sai do ar que o sustenta.

Arrasto, não sustentação

Quase tudo que voa é projetado em torno da sustentação: um perfil de asa desvia o escoamento e produz uma força predominantemente perpendicular a ele. Floaty é projetado em torno do arrasto — a força alinhada com o escoamento, aquela que a aeronáutica costuma tratar como prejuízo a minimizar. Aqui ela é o produto.

O modelo usado pelos autores é deliberadamente simples. A base central e as quatro abas são tratadas como placas finas, e a força sobre cada uma é proporcional à densidade do ar, à área da placa e ao quadrado da componente da velocidade relativa perpendicular à superfície. Girar uma aba muda essa componente perpendicular e, portanto, muda a força — sem nenhum motor empurrando ar. Na configuração nominal de voo pairado, a soma dos arrastos sobre a base e as quatro abas equilibra o peso.

A partir daí, o controle é geometria. Abrir ou fechar as quatro abas ao mesmo tempo, mantendo a simetria, altera a área projetada contra o fluxo e com ela a força vertical total. Abrir duas abas opostas e fechar as outras duas cria um torque em torno do eixo vertical, ou seja, guinada. Fechar duas abas adjacentes e abrir as outras duas desequilibra o arrasto entre um lado e o outro, e esse desequilíbrio vira torque de rolagem ou de arfagem — que, por sua vez, inclina o corpo e o desloca lateralmente.

Como quatro abas comandam seis graus de liberdade
ComandoO que as abas fazemEfeito no voo
Força verticalas quatro abrem ou fecham juntas, mantendo a simetriamuda a área projetada e, com ela, a altura
Guinadaduas abas opostas abrem, as outras duas fechamgira o robô em torno do eixo vertical
Rolagemduas abas adjacentes fecham, as outras duas abreminclina o corpo e o desloca em um dos eixos horizontais
Arfagemo par adjacente perpendicular repete o movimentoinclina o corpo e o desloca no eixo horizontal restante

São quatro atuadores para seis graus de liberdade, o que significa que nem tudo pode ser comandado ao mesmo tempo. A solução foi montar uma matriz fixa que converte quatro sinais compostos nos quatro ângulos de aba, aproveitando a simetria do corpo para que cada sinal atue de forma quase independente perto do voo pairado. Há uma hierarquia embutida: o comando de altura é o de menor prioridade e pode ser sobreposto pela estabilização de atitude. A justificativa dos autores é direta — errar a altura não derruba o robô; perder a atitude, sim.

A dobra de 42,5 graus

A parte mais interessante do projeto não está no controlador, e sim no formato do corpo — é ali que se responde ao que muda, de fato, quando a máquina muda de forma.

Por que a rolagem era o problema

Na versão inicial, com abas planas, os dois eixos horizontais se comportavam de maneira oposta. Visto ao longo do eixo de arfagem, o conjunto formava um “V” contra o escoamento, arranjo que se autocorrige: uma inclinação aumenta o arrasto do lado que desce e empurra o corpo de volta. Visto ao longo do eixo de rolagem, formava um “Λ” invertido, que faz o contrário — qualquer inclinação se amplifica. No modelo dos autores, a constante que liga o ângulo de rolagem à aceleração de rolagem valia cerca de +100 por segundo ao quadrado, com um polo instável em torno de 9,5.

Duas mudanças resolveram isso, ambas descritas como inspiradas em aves. A primeira foi baixar o centro de massa cerca de 7 centímetros abaixo do plano das abas. A segunda foi abandonar a aba plana e introduzir uma dobra de 42,5 graus em um dos lados de cada uma. Juntas, elas invertem o sinal da realimentação: a constante passa a valer aproximadamente −16 por segundo ao quadrado, e os polos da rolagem migram para um par complexo em torno de −0,5 ± 4i. Em linguagem menos técnica, a oscilação que antes crescia sozinha passa a amortecer sozinha.

É esse deslocamento que os autores chamam de inteligência incorporada. O termo não sugere que a máquina pense com o corpo. Significa que parte do trabalho de estabilização saiu do software e foi para a geometria: a estrutura já corrige uma parcela do desvio antes que qualquer sensor meça alguma coisa, e o controlador que sobra pode ser mais simples e mais barato. Os valores de 42,5 graus e de 7 centímetros não foram copiados de nenhum animal — saíram de uma otimização do próprio modelo dinâmico, calibrada para garantir estabilidade sem sacrificar autoridade de controle. Pelo mesmo critério, o ângulo nominal das abas em voo pairado foi fixado entre 20 e 25 graus: ângulos menores melhoram a guinada e pioram rolagem, arfagem e altura; ângulos muito grandes derrubam a guinada.

Essa escolha tem preço, e ele é mensurável. Cada aba pesa cerca de 25 gramas, e as quatro somam aproximadamente 100 gramas — quase um terço da massa total de 340 gramas está nas superfícies de controle. A atuação é feita por quatro servomotores de 9 gramas ligados às abas por mecanismos de paralelogramo, com hastes de fibra de carbono de 8 milímetros de diâmetro servindo de eixo. O chassi é impresso em filamento reforçado com fibra, com base de 3 milímetros; as abas, em PLA de 1,6 milímetro. O custo energético da atuação, em compensação, é quase nulo, e por um detalhe de projeto: o centro de pressão de cada aba fica próximo do seu eixo de rotação, de modo que o servo praticamente não trabalha contra a carga aerodinâmica. Ele reposiciona a placa; não sustenta o robô.

O que “modelo aerodinâmico aprendido” quer dizer

O resumo do artigo e o comunicado do instituto repetem que a política de controle vem de um modelo aerodinâmico aprendido experimentalmente. A palavra aprendido é tecnicamente correta e enganosa fora de contexto: não há aprendizado por tentativa e erro durante o voo, não há rede neural, e nada dentro do robô muda enquanto ele está no ar.

O que houve foi identificação de sistema, procedimento clássico da engenharia de controle. Os autores explicam por que não mediram as constantes diretamente: para isso o robô precisaria voar solto e sem controlador nenhum dentro do túnel, o que é impraticável. A alternativa foi indireta.

  1. Um modelo analítico de arrasto sobre placas finas serviu para otimizar a forma do corpo e projetar um controlador preliminar.
  2. Esse controlador preliminar sustentava voos curtos, suficientes para gravar ângulo de rolagem, velocidade angular e velocidade lateral com as câmeras de captura de movimento.
  3. As séries temporais foram levadas ao domínio da frequência, filtradas para remover ruído e resolvidas como um sistema linear, o que devolve as constantes de malha fechada.
  4. O procedimento foi repetido com um segundo controlador preliminar, de ganho diferente. Com dois pares de medidas é possível separar o efeito do comando do comportamento estrutural do corpo.
  5. As constantes obtidas realimentaram o projeto do controlador final, e o ciclo se repetiu.

Os números publicados deixam o método transparente: com ganhos de −0,2 e −0,15 nos dois controladores preliminares, as constantes de malha fechada medidas foram −60 e −48,5, o que resulta em uma autoridade de comando de 230 e na constante estrutural de −16 citada acima. A autoridade de comando é uma ordem de grandeza maior que o efeito estrutural, e é isso que garante que o robô seja controlável. O controlador final é proporcional, com termo integral apenas para a posição vertical, e a estimativa de estado é feita por um filtro de Kalman sobre um vetor de dezesseis valores: três de posição, três de velocidade linear, três de orientação, três de velocidade angular e quatro correspondentes aos ângulos estimados das abas.

Quem aprendeu, portanto, foram os pesquisadores, entre um voo e outro. O que ficou no robô é uma lei de controle fixa, com constantes medidas de antemão naquele túnel específico.

A diferença fica nítida quando se olha um robô que faz o contrário. O LisEagle, do Laboratório de Sistemas Inteligentes da Escola Politécnica Federal de Lausanne, descrito na mesma npj Robotics em novembro de 2024, é uma aeronave de asa fixa inspirada em aves, com hélice, 1,52 metro de envergadura, 752 gramas e oito graus de liberdade de deformação entre asas e cauda. Ele roda otimização bayesiana em um computador de bordo que testa vinte configurações por voo e converge para a mais econômica — isso, sim, é adaptação em pleno voo. E o ganho dessa busca é de 11,5% a 8 metros por segundo, caindo para 4,4% a 12 metros por segundo. A lição vale para os dois lados: Floaty não faz nada parecido, e mudar de forma, por si só, não produz uma ordem de grandeza. A ordem de grandeza vem de desligar a propulsão.

A conta de energia

O número que sustenta o artigo veio de um ensaio de autonomia: o robô pairou sobre o túnel até esgotar suas duas baterias de LiPo de célula única e 250 mAh, com 0,925 watt-hora cada, ligadas em série para fornecer 7,6 volts. Em ensaios repetidos, a duração média ficou em aproximadamente 33 minutos, o que corresponde a uma potência média total de cerca de 3,4 watts. Desses, 0,3 watt é consumo da eletrônica de bordo — microcontrolador e sensores inerciais. Sobram cerca de 3,1 watts para os quatro servos. Com 340 gramas, o resultado é a potência específica de aproximadamente 10 watts por quilo.

A comparação não ficou no plano teórico. A equipe mediu dois quadricópteros nas mesmas condições. Um Crazyflie 2.1 de 27 gramas, que usa o mesmo microcontrolador de Floaty, consome cerca de 8 watts pairando em ar parado, ou 296 watts por quilo; quando tentaram voá-lo dentro da corrente ascendente do túnel, o controle se mostrou difícil mesmo em velocidades reduzidas e não houve ganho relevante de eficiência. Um quadricóptero próprio, de 40 por 40 centímetros e 950 gramas, marcou 145 watts por quilo em ar parado e caiu para 68 watts por quilo na corrente de cerca de 10 metros por segundo — uma melhora de 53%, e ainda assim quase sete vezes o valor de Floaty.

Potência específica em voo pairado, conforme as medições e o levantamento dos autores
AparelhoMassaCondiçãoPotência específica
Floaty340 gcorrente vertical de 10 m/s≈ 10 W/kg
Quadricóptero de 40 cm da equipe950 gcorrente vertical de ≈ 10 m/s68 W/kg
Quadricóptero de 40 cm da equipe950 gar parado145 W/kg
Crazyflie 2.127 gar parado≈ 296 W/kg
Multirrotores em geral, na literaturaar parado100 a 250 W/kg

Convém ler a tabela pelo que ela de fato compara. Um quadricóptero paira em qualquer lugar; Floaty só paira onde existe uma corrente vertical sustentada entre 8 e 11 metros por segundo. Os 10 watts por quilo não medem o custo de voar — medem o custo de controlar atitude e posição depois que o ambiente já forneceu a força que segura a máquina no ar. É um número honesto e condicional ao mesmo tempo.

A autonomia é justamente onde a robótica aérea bioinspirada emperra. Uma revisão de Renan S. Geronel e Douglas D. Bueno, da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira da Unesp, publicada em março de 2025 no periódico de engenharia aeroespacial da Institution of Mechanical Engineers, aponta que os gargalos recorrentes desses veículos, sobretudo em escala pequena, são projeto, controle e baixa autonomia — e registra a integração de células solares às superfícies bioinspiradas como uma das linhas em curso para estender o tempo de voo. Floaty ataca o mesmo gargalo pelo lado oposto: em vez de embarcar mais energia, dispensa a propulsão.

O que as aves fazem, e o que Floaty não faz

Em vez de depender de motores geradores de empuxo, Floaty mostra que robôs podem cavalgar o vento de forma inteligente, exatamente como os pássaros, economizando muita energia e continuando controláveis.

Ghadeer Elmkaiel, primeira assinatura do estudo, do grupo Learning and Dynamical Systems do MPI-IS, em comunicado do instituto

A analogia é dos próprios autores e ajuda a entender o princípio, mas funciona em uma direção só — e a literatura sobre voo animal mostra por quê. O que a mudança de forma faz por uma ave já está medido. Em 2007, um grupo liderado por David Lentink ensaiou asas reais de andorinhão em túnel de vento e construiu, a partir dos dados, um modelo semiempírico de planeio. O resultado é preciso: escolher o enflechamento adequado pode reduzir à metade a velocidade de descida ou triplicar a taxa de curva. Asas estendidas são melhores para planeios e curvas lentos; asas recolhidas, para os rápidos. O modelo ainda prevê que o planeio mais econômico ocorre entre 8 e 10 metros por segundo, faixa em que os andorinhões efetivamente passam a noite voando.

É disso que se trata quando se fala em alterar a razão de planeio: a ave muda a relação entre a distância percorrida e a altura perdida, e essa relação depende de sustentação. Floaty não faz nada disso. Não tem perfil de asa, não voa para frente, não desce de forma controlada e não tem razão de planeio para melhorar. O que o segura no ar é o arrasto de placas planas contra um fluxo que sobe, e o que as abas modulam é esse arrasto. A confusão tem origem rastreável: o comunicado do instituto diz que o robô se inspira em aves que planam e se sustentam aproveitando correntes de vento, uma frase correta sobre as aves. Basta comprimi-la para que o verbo mude de dono e o robô passe a planar — o que descreve outro fenômeno físico.

O análogo biológico mais próximo não é o andorinhão que plana, e sim a ave que fica parada no vento. O próprio comunicado do MPI-IS usa a imagem, ao dizer que um avião de asa fixa não consegue permanecer suspenso como um falcão à espreita. Em 2024, Mario Martinez Groves-Raines e colegas filmaram dois falcões australianos da espécie Falco cenchroides mantendo posição em um túnel de vento de escoamento suave e mediram a cinemática de asas e cauda. O enflechamento — a flexão e extensão da asa — dominou o movimento, e apareceram correlações entre graus de liberdade independentes, inclusive entre asa e cauda, que os autores interpretam como o balanço de forças e momentos necessário para sustentar a posição. As duas aves usaram combinações diferentes para chegar ao mesmo resultado, o que os pesquisadores leem como redundância entre graus de liberdade.

Essa redundância é exatamente o que Floaty não tem. São quatro placas rígidas, cada uma com um único eixo de rotação, contra uma superfície que se deforma de modo contínuo e articulado. O próprio artigo registra que a capacidade do robô de alterar a forma é mais limitada que a de uma ave, e sustenta apenas que essa atuação morfológica mínima já basta para estabilizar, pairar e manobrar. Tampouco há aprendizado no sentido animal: um falcão ajusta a asa a uma rajada que nunca sentiu, com sensoriamento distribuído pelo corpo; o robô executa uma lei fixa alimentada por câmeras externas.

Um registro final desarma a leitura fácil da ressalva do túnel de vento: os dois estudos com aves citados acima também foram feitos em túnel, e o LisEagle voou preso a um cabo elástico diante de um túnel de jato aberto. O túnel não é atalho de quem não conseguiu ir a campo — é como essa área mede escoamento em condição repetível, para animais e para máquinas. O problema não está no túnel; está na frase que passa direto por ele.

Da chaminé ao que ainda não existe

Os autores dedicam uma seção às aplicações possíveis, e ela é mais específica do que a repercussão sugeriu. A primeira é industrial: chaminés de grandes fábricas, onde a velocidade de saída costuma ficar entre 10 e 20 metros por segundo, condição próxima à do túnel. Segundo o artigo, o robô poderia operar ali com modificações mínimas, fazendo inspeção e varredura com a fábrica em funcionamento.

Floaty poderia inspecionar chaminés de fábricas onde há forte corrente ascendente. Ele poderia funcionar lá com pouca modificação.

Michael Mühlebach, líder do grupo Learning and Dynamical Systems do MPI-IS, em comunicado do instituto

As demais propostas são correntes verticais naturais — térmicas, correntes de encosta e ondas atmosféricas —, controle de atitude na reentrada de foguetes, com um mecanismo de abas explicitamente comparado ao das aletas da Starship, e a guiagem da carga de balões meteorológicos durante a descida, para facilitar a recuperação. Nenhuma delas foi testada.

Duas ausências merecem registro, porque circularam associadas ao robô. O artigo não menciona busca e salvamento, e não propõe monitoramento ambiental como missão: a citação a térmicas e correntes de encosta descreve ambientes de escoamento onde o princípio valeria, não uma tarefa. Sensoriamento de longa duração também não se sustenta com os números atuais — a autonomia medida é de cerca de 33 minutos com 1,85 watt-hora a bordo.

  • Demonstrado: os voos estacionários, os rastreamentos de guinada, altura e posição descritos acima; recuperação de empurrões dados com uma haste leve; estabilidade quando um ventilador lateral acrescentou uma componente horizontal de cerca de 4 metros por segundo, equivalente a 40% do fluxo vertical; 33 minutos de autonomia.
  • Demonstrado com ressalva: os 10 watts por quilo valem enquanto existir uma corrente vertical entre 8 e 11 metros por segundo, produzida no experimento por sete motores elétricos, e enquanto o robô permanecer dentro do cilindro útil de cerca de 40 centímetros.
  • Apenas proposto pelos autores: inspeção de chaminés industriais, aproveitamento de térmicas e correntes de encosta, controle de atitude em reentrada de foguetes, guiagem de carga de balões meteorológicos.
  • Não aparece no artigo: busca e salvamento, monitoramento ambiental como missão, sensoriamento de longa duração e voo ao ar livre de qualquer tipo.

Os limites declarados pelos próprios autores são dois, e são estruturais. Fora da faixa de 8 a 11 metros por segundo, ajustar o ângulo das abas deixa de compensar: para velocidades bem maiores ou bem menores, é preciso mudar o tamanho ou a massa do robô. E quando a componente horizontal do escoamento passa a dominar, o projeto atual simplesmente deriva, porque não tem como gerar força lateral suficiente. O caminho apontado adiante é híbrido — combinar a sustentação passiva pelo vento com propulsão ativa —, o que ampliaria a faixa de condições ao custo de reintroduzir exatamente o gasto que o conceito existe para evitar.

Sobra a pergunta que nenhum dos ensaios tocou. Uma térmica não é um túnel: é uma região localizada de ar mais quente que sobe, se desloca e se desfaz, e aproveitá-la exige uma estratégia de busca e de permanência no centro da coluna — a ponto de trabalhos sobre voo térmico de aves e de veículos não tripulados terem de incorporar turbulência aos modelos para que a simulação se aproxime do real. Floaty ainda não precisou encontrar a corrente que o sustenta, nem se manter dentro dela sem cinco câmeras dizendo onde ele está. Enquanto isso não for testado, o que existe é um princípio de controle bem documentado e uma eficiência real, medida num lugar onde o vento é feito sob encomenda.

Como apuramos: Esta apuração descreve o que os ensaios publicados na npj Robotics em 21 de junho de 2026 mediram — voo estacionário, giro, deslocamento e rejeição de perturbações dentro de um túnel de vento vertical, com rastreamento externo por câmeras — e não afirma que o robô tenha voado ao ar livre, que plane como uma ave ou que os usos sugeridos pelos autores já tenham sido demonstrados.

Fontes e leituras complementares

  1. Embodied intelligence for sustainable flight: a soaring robot with active morphological control. npj Robotics, v. 4, art. 28 (Elmkaiel, Schmitt e Muehlebach), 21 jun. 2026. Acesso em 6 ago. 2026.
  2. Embodied Intelligence for Sustainable Flight: A Soaring Robot with Active Morphological Control (versão de acesso aberto, com métodos, medições e limitações completos). arXiv (Max Planck Institute for Intelligent Systems e Universidade de Stuttgart), 27 ago. 2025. Acesso em 6 ago. 2026.
  3. Flying robot rides the wind like a bird. Max Planck Institute for Intelligent Systems (comunicado do instituto, distribuído pela EurekAlert), 22 jun. 2026. Acesso em 6 ago. 2026.
  4. How swifts control their glide performance with morphing wings. Nature, v. 446, p. 1082-1085 (Lentink et al.), abr. 2007. Acesso em 6 ago. 2026.
  5. Steady as they hover: kinematics of kestrel wing and tail morphing during hovering flights. Journal of Experimental Biology, v. 227 (Martinez Groves-Raines, Yi, Penn, Watkins, Windsor e Mohamed), 7 ago. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
  6. Adaptive morphing of wing and tail for stable, resilient, and energy-efficient flight of avian-inspired drones. npj Robotics, v. 2, art. 8 (Jeger, Wüest, Toumieh e Floreano, EPFL), 20 nov. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
  7. An overview on bio-inspired UAVs: State-of-the art, challenges and opportunities. Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part G, v. 239 (Geronel e Bueno, Unesp Ilha Solteira), 29 mar. 2025. Acesso em 6 ago. 2026.
  8. Thermal soaring flight of birds and unmanned aerial vehicles. Bioinspiration & Biomimetics, v. 5, art. 045003 (Ákos, Nagy, Leven e Vicsek), 24 nov. 2010. Acesso em 6 ago. 2026.

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