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Mistério Brasil

Passado · Explicador · Arqueologia com laser apurado

As cidades ocultas da Amazônia e o que o LiDAR revela sob a floresta

Varreduras a laser expuseram praças, canais e estradas retas sob a mata na Bolívia e no Equador, e indicam que quase tudo segue por mapear.

Equipe Mistério Brasil Publicado em 1.882 palavras

9min de leitura
Modelo digital de relevo em tons de cinza revelando plataformas retangulares e estradas retas sob a floresta amazônica Ilustração de IA
Nota visual: A imagem de abertura é uma ilustração original gerada por inteligência artificial para representar o tema. Ela não é fotografia nem evidência documental.
Neste texto — 5 seções, 9 min
  1. Como um laser enxerga o chão sob o dossel1 min
  2. Llanos de Mojos: um sistema urbano de baixa densidade2 min
  3. Upano: urbanismo-jardim no sopé dos Andes2 min
  4. O tamanho do que ainda não foi visto1 min
  5. O que o laser não resolve2 min
  6. Fontes e leituras complementares6

Durante décadas, a imagem corrente da Amazônia pré-colonial foi a de grupos pequenos e móveis numa floresta praticamente intocada. Levantamentos com LiDAR — pulsos de laser disparados de aeronaves para reconstruir o relevo sob o dossel — desmontaram boa parte dessa imagem em menos de dez anos. Na Bolívia e no Equador, o método expôs plataformas, praças, canais e estradas retas de dezenas de quilômetros. O que ele não entrega sozinho é quem construiu, quando e por quê: isso continua dependendo de escavação, cerâmica e carbono-14.

Como um laser enxerga o chão sob o dossel

A sigla vem do inglês light detection and ranging. Um escâner a laser instalado numa aeronave dispara pulsos rápidos contra o solo e mede o tempo que a luz leva para voltar. Combinado a GPS e a um sistema de navegação inercial, esse tempo vira distância, e a distância vira coordenada. O produto bruto é uma nuvem de pontos que registra tudo o que estava no caminho: copas, troncos, telhados, cercas e, quando algum pulso escapa pelas frestas da vegetação, o próprio terreno.

O passo decisivo vem depois. Conforme explica o Serviço Geológico dos Estados Unidos, para produzir um modelo digital de elevação de terra nua é preciso classificar e retirar da nuvem os pontos de vegetação e de construções, deixando apenas os retornos de solo. A precisão vertical típica fica em torno de 10 centímetros — o bastante para que uma vala rasa ou um aterro de meio metro apareçam num relevo que, no chão, ninguém distingue a três passos de distância.

  1. A aeronave sobrevoa a área em faixas paralelas, com a própria posição registrada continuamente.
  2. O escâner dispara pulsos e cronometra o retorno de cada um.
  3. Os retornos viram uma nuvem tridimensional de pontos.
  4. Os pontos de vegetação e de estruturas modernas são classificados e removidos.
  5. Sobra o modelo de terra nua, no qual valas, plataformas e estradas antigas ficam visíveis.

Os parâmetros da campanha boliviana dão a medida do esforço: um escâner Riegl VUX-1 acoplado a um helicóptero Eurocopter AS350, voando a 200 metros do solo, gerou cerca de 18 milhões de pontos por quilômetro quadrado. No Equador, a nuvem foi convertida em um modelo de elevação de 1 metro de resolução antes de qualquer leitura arqueológica. O método não inventa nada: ele apenas retira a floresta da imagem.

Llanos de Mojos: um sistema urbano de baixa densidade

Em maio de 2022, Heiko Prümers, Carla Jaimes Betancourt, José Iriarte, Mark Robinson e Martin Schaich publicaram na Nature o resultado de um levantamento a laser em seis blocos do mosaico de savana e floresta dos Llanos de Mojos, no sudoeste da Amazônia boliviana. As áreas tinham de 10 a 85 quilômetros quadrados e somavam 204 quilômetros quadrados. Nesse recorte, o LiDAR documentou em detalhe dois assentamentos grandes e 24 sítios menores — dos quais só 15 eram conhecidos antes.

Os dois grandes são Cotoca, com 147 hectares, e Landívar, com 315 hectares. Pertencem à cultura casarabe, que ocupou a região aproximadamente entre 500 e 1400 da nossa era. Sobre plataformas artificiais erguiam-se estruturas em U, montículos retangulares e pirâmides cônicas de até 22 metros de altura. Ao redor, aterros poligonais concêntricos; para fora, calçadas elevadas retilíneas que se estendem por vários quilômetros até sítios menores.

O que os autores descrevem não é uma cidade murada à moda europeia. É um sistema hierárquico de quatro níveis, classificado pelas dimensões das plataformas de base, pela elaboração da arquitetura cívico-cerimonial no topo delas e pelo número de recintos poligonais que as cercam. Um canal de 7 quilômetros levava água da Laguna San José até Cotoca. O termo que a equipe usa é urbanismo tropical de baixa densidade — a mesma categoria aplicada a sítios do Sudeste Asiático, do Sri Lanka e da América Central, e que até então não tinha sido descrita para a Amazônia pré-hispânica.

Upano: urbanismo-jardim no sopé dos Andes

Em janeiro de 2024, uma equipe liderada por Stéphen Rostain, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, publicou na Science a leitura de um levantamento bem mais antigo: em 2015, o Instituto Nacional de Patrimônio Cultural do Equador contratou uma varredura de 600 quilômetros quadrados entre o alto Upano e o rio Pastaza. O grupo analisou os 300 quilômetros quadrados da porção sul.

Dentro desse recorte, o LiDAR detectou mais de 6.000 plataformas de terra. O formato padrão é retangular, com cerca de 20 por 10 metros e 2 a 3 metros de altura preservada. Elas raramente aparecem isoladas: agrupam-se de três a seis unidades em torno de uma praça, formando complexos que costumam medir 40 por 40 metros e são interpretados como residenciais. A densidade média é de 16,6 plataformas por quilômetro quadrado, mas há trechos com mais de 100. Quinze assentamentos foram identificados — cinco maiores e dez secundários. O maior complexo, em Kilamope, cobre 10 hectares e inclui uma plataforma monumental de 140 por 40 metros e 4,5 metros de altura.

O traço mais impressionante, porém, são as estradas escavadas. Têm em média 2 a 3 metros de profundidade, largura de 4 a 6 metros nas menores e mais de 15 metros nas maiores, e correm praticamente retas, sem contornar o relevo. As duas mais longas identificadas no levantamento — Uyunts–Jurumbono e Kilamope–Kunguints — seguem por mais de 14 e 25 quilômetros, respectivamente, e provavelmente continuam fora da área varrida. Entre os complexos, o laser mostrou centenas de hectares de campos drenados: parcelas retangulares de 10 a 40 metros de largura, delimitadas por valas de cerca de 4 metros de largura e 40 centímetros de profundidade.

comparável a sistemas urbanos maias recentemente destacados no México e na Guatemala

Rostain e colegas, sobre a escala do desenvolvimento no alto Amazonas (Science, 2024)

As escavações em Sangay e Kilamope datam a construção original das plataformas e estradas entre cerca de 500 a.C. e 300–600 d.C., com reocupação de alguns montículos pela cultura huapula entre 800 e 1200 d.C. Grãos de amido em cerâmica indicam milho, feijão, mandioca e batata-doce. A hipótese de que a ocupação terminou de forma abrupta após uma grande erupção do vulcão Sangay, entre 400 e 600 d.C., é discutida no próprio artigo — e questionada ali mesmo pela disparidade das datas de radiocarbono obtidas para esses níveis.

O tamanho do que ainda não foi visto

A tentação, diante de resultados assim, é imaginar que a Amazônia já foi lida. Está longe disso. Em outubro de 2023, um trabalho liderado por Vinicius Peripato, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mediu exatamente o tamanho da ignorância. A equipe vasculhou 5.315 quilômetros quadrados de dados LiDAR coletados originalmente para estimar biomassa florestal — o equivalente a 0,08% da bacia — e encontrou 24 estruturas de terra pré-colombianas que ninguém havia detectado.

A partir daí, os autores modelaram a distribuição provável desses sítios em toda a Amazônia. O resultado: entre 10.272 e 23.648 estruturas ainda por descobrir, com média de 16.187. Como o inventário conhecido reunia 937 obras de terra, isso significa que o registro atual corresponde a algo entre 4% e 9% do total, e que de 91% a 96% permanecem invisíveis. O estudo também identificou 53 espécies de árvores domesticadas cuja ocorrência está associada à probabilidade de haver obras de terra por perto — indício de manejo antigo que sobreviveu na composição da floresta.

A distribuição não é uniforme. Quase 80% da bacia tem probabilidade estimada de 0 a 1% para cada célula de um quilômetro quadrado. Já as células de probabilidade alta se concentram quase todas num retângulo de 94.713 quilômetros quadrados que cobre boa parte do Acre — a mesma região dos geoglifos geométricos que apareceram com o desmatamento para pastagem. Vale notar o incômodo embutido nesse dado: o desmatamento já removeu cerca de 17% da cobertura vegetal natural da Amazônia, e é justamente onde a floresta caiu que a arqueologia enxerga melhor.

O que o laser não resolve

LiDAR entrega geometria, não cronologia. Um modelo de terra nua mostra que existe uma plataforma; não diz de quando ela é, quem a levantou nem se estava em uso ao mesmo tempo que a plataforma vizinha. A faixa de 500 a 1400 d.C. atribuída à cultura casarabe e o intervalo de 500 a.C. a 600 d.C. do vale do Upano vêm de escavação, cerâmica e datação por radiocarbono — não do sobrevoo.

A contemporaneidade das redes é uma inferência, e os autores dizem isso. No Upano, a equipe argumenta que a homogeneidade arquitetônica e as estradas que ligam os sítios sugerem que a rede funcionou ao menos em parte simultaneamente. Sugerem: não medem. Estimativas de população, então, são ainda mais frágeis, porque dependem de supor quantas pessoas viviam em cada plataforma e por quanto tempo.

Há também uma discussão de vocabulário que não é mera implicância acadêmica. Chamar esses conjuntos de cidades transporta para a Amazônia uma imagem de muralha, pedra e adensamento contínuo que não corresponde ao que o laser mostra. Michael Heckenberger e colegas, trabalhando no Alto Xingu com os Kuikuro, propuseram em 2008 o termo urbanismo galáctico para descrever aglomerados de pequenas unidades políticas articuladas numa rede regional — algo estruturalmente diferente de uma capital única. É a mesma paisagem que aparece, com outro desenho, em Mojos e no Upano.

Fica de pé a pergunta que motivou este texto: se 0,08% da bacia varrida a laser já produziu 24 sítios inéditos e um modelo que projeta dezenas de milhares, quanto do passado amazônico está simplesmente à espera de um avião com o instrumento certo? E quanto dele desaparece antes disso, sob trator ou pasto? Uma parte dessa história é contada nos enigmas ainda em aberto da floresta — inclusive o do explorador que foi procurar uma cidade perdida na região onde, décadas depois, encontraram-se cidades de verdade.

Como apuramos: A apuração descreve o que os levantamentos por LiDAR mapearam e o que as escavações associadas dataram; não afirma que a Amazônia abrigou cidades de pedra nem que a extensão total dessas redes já seja conhecida.

Fontes e leituras complementares

  1. Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon. Nature, 25 maio 2022. Acesso em 6 ago. 2026.
  2. Two thousand years of garden urbanism in the Upper Amazon. Science, 12 jan. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
  3. More than 10,000 pre-Columbian earthworks are still hidden throughout Amazonia. Science, 6 out. 2023. Acesso em 6 ago. 2026.
  4. Pre-Columbian urbanism, anthropogenic landscapes, and the future of the Amazon. Science, 29 ago. 2008. Acesso em 6 ago. 2026.
  5. Impact of pre-Columbian “geoglyph” builders on Amazonian forests. Proceedings of the National Academy of Sciences, 21 fev. 2017. Acesso em 6 ago. 2026.
  6. What is lidar data and where can I download it?. U.S. Geological Survey. Acesso em 6 ago. 2026.

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