Os papiros de Herculano: o que as máquinas já leram e o quanto continua fechado
Modelos de aprendizado leram cerca de 5% de um papiro de Herculano e o título de outro. Mais de 330 rolos nunca foram abertos.
Ilustração de IA Neste texto — 5 seções, 9 min
Em 79 d.C., a erupção do Vesúvio soterrou Herculano e transformou em carvão a única biblioteca da Antiguidade que chegou até nós mais ou menos inteira. Mais de 1.800 rolos e fragmentos foram retirados de uma vila da cidade no século XVIII, e boa parte nunca foi aberta, porque abrir significa despedaçar. Desde 2023, um concurso internacional vem demonstrando que dá para ler alguns desses rolos sem tocá-los. O que saiu até agora, porém, é bem menor do que as manchetes sugerem: cerca de 5% de um papiro, o título de outro e algumas dezenas de colunas de texto grego.
A biblioteca que o vulcão fechou
Uma observação de vocabulário antes de tudo, porque ela explica metade do problema técnico: os documentos de Herculano são papiros, não pergaminhos. Papiro é fibra vegetal prensada; pergaminho é pele animal tratada. A diferença de material vai reaparecer adiante, quando a conversa chegar à tinta.
Os rolos vieram da chamada Vila dos Papiros, explorada no século XVIII por meio de túneis subterrâneos — a primeira planta do edifício foi desenhada em 1754 pelo engenheiro suíço Karl Weber. Segundo o Parque Arqueológico de Herculano, mais de 1.800 rolos carbonizados foram encontrados ali, e o conjunto é descrito como a única biblioteca íntegra que sobreviveu do mundo antigo. A vila é atribuída, com probabilidade e não com certeza, à aristocracia senatorial romana.
A vila também não foi escavada por completo. Boa parte dela continua enterrada no material vulcânico, sob a cidade moderna. O que existe hoje em depósito, portanto, é uma amostra de um acervo cujo tamanho real ninguém conhece.
Dos cerca de 1.800 itens recuperados, a Scientific American registra que mais de 330 rolos jamais foram abertos. São esses os objetos em disputa: cilindros pretos, quebradiços, em que a página e a tinta viraram a mesma coisa — carbono.
Por que Herculano é mais difícil que En-Gedi
A técnica em jogo não nasceu em Herculano e tem nome próprio: desembrulho virtual. Ela foi demonstrada de ponta a ponta em 2016, quando a equipe de Brent Seales, da Universidade do Kentucky, leu duas colunas do Levítico dentro de um rolo carbonizado escavado em Israel sem abri-lo. O passo a passo do método — segmentação das camadas, texturização, achatamento e fusão das superfícies — está explicado em detalhe na nossa reportagem sobre o rolo de En-Gedi. Aqui interessa o que muda quando o mesmo método é apontado para Herculano.
Muda a tinta. No rolo de En-Gedi, a escrita aparece na tomografia porque é mais densa que o suporte: o artigo original sugere que ela contenha metal, como ferro ou chumbo. Em Herculano, a tinta é à base de carbono, aplicada sobre papiro que o calor também transformou em carbono. Como resume a Scientific American, a radiodensidade da tinta é parecida com a do papiro, e sem diferença de densidade não há contraste para o raio X registrar. Durante décadas, foi exatamente esse o muro: a tomografia via a forma do rolo, mas não via a letra.
O que a máquina foi treinada para enxergar
A saída foi trocar de sinal. Em vez de procurar densidade, os modelos foram treinados para reconhecer uma textura: o padrão de craquelê que a tinta deixa na superfície do papiro, sutil o bastante para escapar do olho humano e visível o suficiente nos dados tomográficos de alta resolução. Foi assim que Luke Farritor encontrou as primeiras letras, treinando um modelo nesse padrão; Youssef Nader chegou ao mesmo resultado por transferência de domínio a partir de modelos de uma competição anterior no Kaggle.
Seales trabalha nesse problema há mais de duas décadas — fez microtomografias de papiros de Herculano no Instituto de França em 2009 — e por muito tempo com uma equipe pequena. O formato de concurso mudou a escala do esforço: “o Vesuvius Challenge, que é um prêmio competitivo, nos permitiu recrutar mais de mil equipes de pesquisa para um problema no qual normalmente teríamos apenas cinco pessoas trabalhando”, disse ele em 2023, em entrevista à Universidade do Kentucky.
O segundo gargalo é geométrico, e é menos glamouroso. Antes de detectar tinta, alguém precisa dizer ao computador onde está cada volta do rolo — a segmentação. Feita à mão, ela rendia cerca de 0,2 polegada quadrada de superfície de papiro por hora, segundo a Scientific American. Daí a corrida por segmentação automática ter virado prioridade declarada do concurso. As tomografias, por sua vez, vêm de aceleradores de partículas: o Vesuvius Challenge informa varreduras 3D com resolução de até 4 micrômetros, e o papiro PHerc. 172 foi digitalizado no síncrotron Diamond Light Source, em Harwell, no Reino Unido, em julho de 2024.
O que foi de fato lido
Vale percorrer os marcos com os números que cada um efetivamente entregou, porque a distância entre o anúncio e o conteúdo é onde este assunto costuma ser exagerado.
| Quando | Prêmio | O que foi efetivamente lido |
|---|---|---|
| Out. 2023 | Primeiras Letras: US$ 40 mil a Luke Farritor e US$ 10 mil a Youssef Nader; US$ 10 mil a Casey Handmer pela primeira evidência de tinta | A palavra grega ΠΟΡΦΥΡΑϹ (“púrpura”) e letras vizinhas. O critério exigia ao menos 10 letras em uma área de 4 cm² |
| Fev. 2024 | Grande Prêmio: US$ 700 mil a Youssef Nader, Luke Farritor e Julian Schilliger | 15 colunas e mais de 2.000 caracteres do papiro PHerc. Paris. 4, do Instituto de França — cerca de 5% do rolo |
| Fev. 2025 | Sem prêmio associado | Primeiras imagens do interior do PHerc. 172, na Bodleian, com cerca de 26 linhas visíveis por coluna |
| Maio 2025 | Primeiro Título: US$ 60 mil a Marcel Roth e Micha Nowak | O título e o autor escritos dentro do PHerc. 172: “Sobre os vícios”, de Filodemo |
O critério do Grande Prêmio dá a medida exata do que se considerou vitória em 2024: quatro passagens de 140 caracteres cada, com pelo menos 85% dos caracteres recuperáveis. Não é uma leitura corrida do rolo; é um limiar de legibilidade estabelecido de antemão. O texto recuperado trata de filosofia epicurista — prazer, escassez e abundância — e é atribuído com probabilidade a Filodemo, filósofo e poeta que viveu no século I a.C.
Como também no caso da comida, não acreditamos de imediato que aquilo que é escasso seja absolutamente mais prazeroso do que aquilo que é abundante.
No caso do PHerc. 172, o título foi encontrado na parte mais interna do rolo por Marcel Roth e Micha Nowak, da Universidade de Würzburg, e, quase ao mesmo tempo, por Sean Johnson, da equipe de pesquisa do próprio concurso. A equipe de papirólogos coordenada por Federica Nicolardi revisou as imagens de forma independente e leu, por unanimidade, o nome do autor como Filodemo. A obra é o tratado de ética conhecido pelo título longo “Sobre os vícios e as virtudes que se lhes opõem, e em quem elas estão e a respeito de quê”. O número do livro é o detalhe que merece atenção: os organizadores dizem que provavelmente é o livro 1, mas registram que essa parte é menos certa por enquanto.
Há uma ressalva importante no melhor resultado até agora. Segundo as Bibliotecas Bodleian, o PHerc. 172 se mostrou especialmente adequado ao método porque a composição química de sua tinta aparece com mais nitidez nos raios X do que a dos demais — possivelmente por conter contaminantes mais densos, como chumbo. Ou seja: o papiro mais legível do acervo é, justamente, o menos típico dele. Brent Seales afirmou, no mesmo comunicado, que aquele rolo contém mais texto recuperável do que qualquer papiro de Herculano já digitalizado.
O que continua fechado
Os obstáculos que restam não são conceituais, e sim de escala e de custo. Cada rolo digitalizado gera volumes enormes de dados tomográficos; o acesso a síncrotrons é caro e disputado; e a segmentação, mesmo automatizada, continua sendo o passo que determina quanto texto é possível extrair de uma varredura. A meta anunciada pelos organizadores para 2024 era ambiciosa — sair de 5% de um rolo e chegar a 90% de quatro rolos digitalizados —, com foco declarado em automatizar a segmentação para reduzir o trabalho manual.
Também convém separar o que a máquina faz do que ela não faz. Os modelos apontam onde provavelmente há tinta e melhoram a imagem. Transcrever, editar e traduzir continua sendo trabalho de papirólogos, e é por isso que cada anúncio do concurso passa por uma equipe acadêmica antes de virar leitura. O modelo produz uma hipótese visual; a leitura é humana.
A pergunta que continua aberta
A dúvida honesta, hoje, não é mais se um papiro fechado pode ser lido — isso foi demonstrado. É se o método generaliza. O caso mais bem-sucedido até agora envolve um rolo cuja tinta é anormalmente visível nos raios X. Nos demais, o contraste entre tinta de carbono e papiro carbonizado continua sendo o problema original, e a resposta depende de o sinal de textura ser forte o bastante em cada objeto, um a um.
Depois vem a pergunta de conteúdo, que é a que interessa a quem estuda a Antiguidade: o que há nos mais de 330 rolos que nunca foram abertos, e no trecho da vila que nunca foi escavado. Nada garante que sejam obras desconhecidas; nada garante que não sejam. Os dois textos identificados até aqui são gregos e epicuristas, o que é coerente com o que já se sabia da coleção, mas dois textos não descrevem uma biblioteca.
O que mudou de fato, entre 2023 e 2025, foi o estatuto do obstáculo. Ele deixou de ser um muro — abrir destrói, logo não se lê — e virou uma fronteira de pesquisa com custo, prazo e taxa de acerto mensuráveis. É um avanço real e é bem menos do que uma biblioteca recuperada. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é razoável que se leve mais uma década para saber qual delas pesa mais.
Como apuramos: A apuração reúne os anúncios do próprio Vesuvius Challenge, o comunicado das Bibliotecas Bodleian e a cobertura independente da Scientific American; ela descreve o que foi efetivamente transcrito até aqui e não afirma que a biblioteca de Herculano tenha sido lida.
Fontes e leituras complementares
- Vesuvius Challenge 2023 Grand Prize awarded. Vesuvius Challenge, 5 fev. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
- First Letters found in unopened Herculaneum scroll. Vesuvius Challenge, 12 out. 2023. Acesso em 6 ago. 2026.
- $60,000 First Title Prize awarded. Vesuvius Challenge, 5 maio 2025. Acesso em 6 ago. 2026.
- Inside of Herculaneum scroll seen for the first time in almost 2,000 years. Bodleian Libraries, Universidade de Oxford, 5 fev. 2025. Acesso em 6 ago. 2026.
- Inside the AI Competition That Decoded an Ancient Herculaneum Scroll. Scientific American, 19 mar. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
- Villa of the Papyri. Parco Archeologico di Ercolano. Acesso em 6 ago. 2026.
- Herculaneum scrolls: a 20-year journey to read the unreadable. University of Kentucky Research, 24 ago. 2023. Acesso em 6 ago. 2026.
- From damage to discovery via virtual unwrapping: Reading the scroll from En-Gedi (Science Advances 2, e1601247; DOI 10.1126/sciadv.1601247). Science Advances / PubMed Central, 21 set. 2016. Acesso em 6 ago. 2026.