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Mistério Brasil

Passado · Enigma · Biblioteca carbonizada em aberto

Os papiros de Herculano: o que as máquinas já leram e o quanto continua fechado

Modelos de aprendizado leram cerca de 5% de um papiro de Herculano e o título de outro. Mais de 330 rolos nunca foram abertos.

Equipe Mistério Brasil Publicado em 1.984 palavras

9min de leitura
Rolo de papiro carbonizado de Herculano apoiado em suporte de laboratório, com fatias de tomografia projetadas em uma tela ao lado Ilustração de IA
Nota visual: A imagem de abertura é uma ilustração original gerada por inteligência artificial para representar o tema. Ela não é fotografia nem evidência documental.
Neste texto — 5 seções, 9 min
  1. A biblioteca que o vulcão fechou1 min
  2. Por que Herculano é mais difícil que En-Gedi2 min
  3. O que foi de fato lido2 min
  4. O que continua fechado1 min
  5. A pergunta que continua aberta1 min
  6. Fontes e leituras complementares8

Em 79 d.C., a erupção do Vesúvio soterrou Herculano e transformou em carvão a única biblioteca da Antiguidade que chegou até nós mais ou menos inteira. Mais de 1.800 rolos e fragmentos foram retirados de uma vila da cidade no século XVIII, e boa parte nunca foi aberta, porque abrir significa despedaçar. Desde 2023, um concurso internacional vem demonstrando que dá para ler alguns desses rolos sem tocá-los. O que saiu até agora, porém, é bem menor do que as manchetes sugerem: cerca de 5% de um papiro, o título de outro e algumas dezenas de colunas de texto grego.

A biblioteca que o vulcão fechou

Uma observação de vocabulário antes de tudo, porque ela explica metade do problema técnico: os documentos de Herculano são papiros, não pergaminhos. Papiro é fibra vegetal prensada; pergaminho é pele animal tratada. A diferença de material vai reaparecer adiante, quando a conversa chegar à tinta.

Os rolos vieram da chamada Vila dos Papiros, explorada no século XVIII por meio de túneis subterrâneos — a primeira planta do edifício foi desenhada em 1754 pelo engenheiro suíço Karl Weber. Segundo o Parque Arqueológico de Herculano, mais de 1.800 rolos carbonizados foram encontrados ali, e o conjunto é descrito como a única biblioteca íntegra que sobreviveu do mundo antigo. A vila é atribuída, com probabilidade e não com certeza, à aristocracia senatorial romana.

A vila também não foi escavada por completo. Boa parte dela continua enterrada no material vulcânico, sob a cidade moderna. O que existe hoje em depósito, portanto, é uma amostra de um acervo cujo tamanho real ninguém conhece.

Dos cerca de 1.800 itens recuperados, a Scientific American registra que mais de 330 rolos jamais foram abertos. São esses os objetos em disputa: cilindros pretos, quebradiços, em que a página e a tinta viraram a mesma coisa — carbono.

Por que Herculano é mais difícil que En-Gedi

A técnica em jogo não nasceu em Herculano e tem nome próprio: desembrulho virtual. Ela foi demonstrada de ponta a ponta em 2016, quando a equipe de Brent Seales, da Universidade do Kentucky, leu duas colunas do Levítico dentro de um rolo carbonizado escavado em Israel sem abri-lo. O passo a passo do método — segmentação das camadas, texturização, achatamento e fusão das superfícies — está explicado em detalhe na nossa reportagem sobre o rolo de En-Gedi. Aqui interessa o que muda quando o mesmo método é apontado para Herculano.

Muda a tinta. No rolo de En-Gedi, a escrita aparece na tomografia porque é mais densa que o suporte: o artigo original sugere que ela contenha metal, como ferro ou chumbo. Em Herculano, a tinta é à base de carbono, aplicada sobre papiro que o calor também transformou em carbono. Como resume a Scientific American, a radiodensidade da tinta é parecida com a do papiro, e sem diferença de densidade não há contraste para o raio X registrar. Durante décadas, foi exatamente esse o muro: a tomografia via a forma do rolo, mas não via a letra.

O que a máquina foi treinada para enxergar

A saída foi trocar de sinal. Em vez de procurar densidade, os modelos foram treinados para reconhecer uma textura: o padrão de craquelê que a tinta deixa na superfície do papiro, sutil o bastante para escapar do olho humano e visível o suficiente nos dados tomográficos de alta resolução. Foi assim que Luke Farritor encontrou as primeiras letras, treinando um modelo nesse padrão; Youssef Nader chegou ao mesmo resultado por transferência de domínio a partir de modelos de uma competição anterior no Kaggle.

Seales trabalha nesse problema há mais de duas décadas — fez microtomografias de papiros de Herculano no Instituto de França em 2009 — e por muito tempo com uma equipe pequena. O formato de concurso mudou a escala do esforço: “o Vesuvius Challenge, que é um prêmio competitivo, nos permitiu recrutar mais de mil equipes de pesquisa para um problema no qual normalmente teríamos apenas cinco pessoas trabalhando”, disse ele em 2023, em entrevista à Universidade do Kentucky.

O segundo gargalo é geométrico, e é menos glamouroso. Antes de detectar tinta, alguém precisa dizer ao computador onde está cada volta do rolo — a segmentação. Feita à mão, ela rendia cerca de 0,2 polegada quadrada de superfície de papiro por hora, segundo a Scientific American. Daí a corrida por segmentação automática ter virado prioridade declarada do concurso. As tomografias, por sua vez, vêm de aceleradores de partículas: o Vesuvius Challenge informa varreduras 3D com resolução de até 4 micrômetros, e o papiro PHerc. 172 foi digitalizado no síncrotron Diamond Light Source, em Harwell, no Reino Unido, em julho de 2024.

O que foi de fato lido

Vale percorrer os marcos com os números que cada um efetivamente entregou, porque a distância entre o anúncio e o conteúdo é onde este assunto costuma ser exagerado.

Marcos do Vesuvius Challenge e o que cada um entregou
QuandoPrêmioO que foi efetivamente lido
Out. 2023Primeiras Letras: US$ 40 mil a Luke Farritor e US$ 10 mil a Youssef Nader; US$ 10 mil a Casey Handmer pela primeira evidência de tintaA palavra grega ΠΟΡΦΥΡΑϹ (“púrpura”) e letras vizinhas. O critério exigia ao menos 10 letras em uma área de 4 cm²
Fev. 2024Grande Prêmio: US$ 700 mil a Youssef Nader, Luke Farritor e Julian Schilliger15 colunas e mais de 2.000 caracteres do papiro PHerc. Paris. 4, do Instituto de França — cerca de 5% do rolo
Fev. 2025Sem prêmio associadoPrimeiras imagens do interior do PHerc. 172, na Bodleian, com cerca de 26 linhas visíveis por coluna
Maio 2025Primeiro Título: US$ 60 mil a Marcel Roth e Micha NowakO título e o autor escritos dentro do PHerc. 172: “Sobre os vícios”, de Filodemo

O critério do Grande Prêmio dá a medida exata do que se considerou vitória em 2024: quatro passagens de 140 caracteres cada, com pelo menos 85% dos caracteres recuperáveis. Não é uma leitura corrida do rolo; é um limiar de legibilidade estabelecido de antemão. O texto recuperado trata de filosofia epicurista — prazer, escassez e abundância — e é atribuído com probabilidade a Filodemo, filósofo e poeta que viveu no século I a.C.

Como também no caso da comida, não acreditamos de imediato que aquilo que é escasso seja absolutamente mais prazeroso do que aquilo que é abundante.

Trecho do papiro PHerc. Paris. 4, provavelmente de Filodemo, em tradução para o português a partir da versão inglesa divulgada pela equipe de papirólogos do Vesuvius Challenge

No caso do PHerc. 172, o título foi encontrado na parte mais interna do rolo por Marcel Roth e Micha Nowak, da Universidade de Würzburg, e, quase ao mesmo tempo, por Sean Johnson, da equipe de pesquisa do próprio concurso. A equipe de papirólogos coordenada por Federica Nicolardi revisou as imagens de forma independente e leu, por unanimidade, o nome do autor como Filodemo. A obra é o tratado de ética conhecido pelo título longo “Sobre os vícios e as virtudes que se lhes opõem, e em quem elas estão e a respeito de quê”. O número do livro é o detalhe que merece atenção: os organizadores dizem que provavelmente é o livro 1, mas registram que essa parte é menos certa por enquanto.

Há uma ressalva importante no melhor resultado até agora. Segundo as Bibliotecas Bodleian, o PHerc. 172 se mostrou especialmente adequado ao método porque a composição química de sua tinta aparece com mais nitidez nos raios X do que a dos demais — possivelmente por conter contaminantes mais densos, como chumbo. Ou seja: o papiro mais legível do acervo é, justamente, o menos típico dele. Brent Seales afirmou, no mesmo comunicado, que aquele rolo contém mais texto recuperável do que qualquer papiro de Herculano já digitalizado.

O que continua fechado

Os obstáculos que restam não são conceituais, e sim de escala e de custo. Cada rolo digitalizado gera volumes enormes de dados tomográficos; o acesso a síncrotrons é caro e disputado; e a segmentação, mesmo automatizada, continua sendo o passo que determina quanto texto é possível extrair de uma varredura. A meta anunciada pelos organizadores para 2024 era ambiciosa — sair de 5% de um rolo e chegar a 90% de quatro rolos digitalizados —, com foco declarado em automatizar a segmentação para reduzir o trabalho manual.

Também convém separar o que a máquina faz do que ela não faz. Os modelos apontam onde provavelmente há tinta e melhoram a imagem. Transcrever, editar e traduzir continua sendo trabalho de papirólogos, e é por isso que cada anúncio do concurso passa por uma equipe acadêmica antes de virar leitura. O modelo produz uma hipótese visual; a leitura é humana.

A pergunta que continua aberta

A dúvida honesta, hoje, não é mais se um papiro fechado pode ser lido — isso foi demonstrado. É se o método generaliza. O caso mais bem-sucedido até agora envolve um rolo cuja tinta é anormalmente visível nos raios X. Nos demais, o contraste entre tinta de carbono e papiro carbonizado continua sendo o problema original, e a resposta depende de o sinal de textura ser forte o bastante em cada objeto, um a um.

Depois vem a pergunta de conteúdo, que é a que interessa a quem estuda a Antiguidade: o que há nos mais de 330 rolos que nunca foram abertos, e no trecho da vila que nunca foi escavado. Nada garante que sejam obras desconhecidas; nada garante que não sejam. Os dois textos identificados até aqui são gregos e epicuristas, o que é coerente com o que já se sabia da coleção, mas dois textos não descrevem uma biblioteca.

O que mudou de fato, entre 2023 e 2025, foi o estatuto do obstáculo. Ele deixou de ser um muro — abrir destrói, logo não se lê — e virou uma fronteira de pesquisa com custo, prazo e taxa de acerto mensuráveis. É um avanço real e é bem menos do que uma biblioteca recuperada. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é razoável que se leve mais uma década para saber qual delas pesa mais.

Como apuramos: A apuração reúne os anúncios do próprio Vesuvius Challenge, o comunicado das Bibliotecas Bodleian e a cobertura independente da Scientific American; ela descreve o que foi efetivamente transcrito até aqui e não afirma que a biblioteca de Herculano tenha sido lida.

Fontes e leituras complementares

  1. Vesuvius Challenge 2023 Grand Prize awarded. Vesuvius Challenge, 5 fev. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
  2. First Letters found in unopened Herculaneum scroll. Vesuvius Challenge, 12 out. 2023. Acesso em 6 ago. 2026.
  3. $60,000 First Title Prize awarded. Vesuvius Challenge, 5 maio 2025. Acesso em 6 ago. 2026.
  4. Inside of Herculaneum scroll seen for the first time in almost 2,000 years. Bodleian Libraries, Universidade de Oxford, 5 fev. 2025. Acesso em 6 ago. 2026.
  5. Inside the AI Competition That Decoded an Ancient Herculaneum Scroll. Scientific American, 19 mar. 2024. Acesso em 6 ago. 2026.
  6. Villa of the Papyri. Parco Archeologico di Ercolano. Acesso em 6 ago. 2026.
  7. Herculaneum scrolls: a 20-year journey to read the unreadable. University of Kentucky Research, 24 ago. 2023. Acesso em 6 ago. 2026.
  8. From damage to discovery via virtual unwrapping: Reading the scroll from En-Gedi (Science Advances 2, e1601247; DOI 10.1126/sciadv.1601247). Science Advances / PubMed Central, 21 set. 2016. Acesso em 6 ago. 2026.

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